Por mais que a humanidade já tenha produzido grandes visões filosóficas, descobertas nas ciências cognitivas, relatos psicanalíticos, insights nas tradições contemplativas e pesquisas em neurociência, nossa experiência cotidiana se impõe a qualquer outro tipo de conhecimento. É a realidade sensorial – aquilo que nos aparece, que tocamos, vemos, cheiramos, o tecido luminoso de nosso mundo – que comanda nossas visões e ações, como se o que surge "lá fora" tivesse qualidades independentes de nossa percepção.
Depois de ler o excelente A mente incorporada, com ideias nada convencionais sobre a ausência de um centro subjetivo de identidade, continuamos olhando para nossos amigos como se eles tivessem características inerentes, neles mesmos, como que existentes em um centro dentro da mente, mais precisamente atrás dos olhos, no mesmo local a que nos referimos quando dizemos "Eu".

É por isso que, em vez de recomendar alguma pesquisa do biólogo e neurocientista Francisco Varela ou um livro de Daniel Dennet ou de Marvin Minsky, prefiro sugerir que comecemos olhando para alguma qualidade que parece existir lá fora, em uma pessoa. A chatice é um bom exemplo, mas poderia ser qualquer tipo de inteligência, ignorância, hábito, padrão de comportamento, emoção ou virtude – qualquer atributo que pareça constituir a identidade de alguém.
Se você contemplar alguém que considera bem chato, facilmente perceberá que existe pelo menos uma outra pessoa que não vê chatice alguma ali e no mínimo um ambiente no qual a chatice dela não se manifesta. Você poderia dizer que ela continua essencialmente chata em tais condições, mas que isso apenas não aparece. OK, agora imagine um mundo no qual essa mesma pessoa apenas viva em tais condições... Para onde foi a chatice?
Tal exemplo caricato se aplica a absolutamente todas as pessoas e a qualquer qualidade que atribuímos às suas identidades. Se vemos "chatice" em alguém, isso significa apenas que é essa a qualidade da relação que construímos com o outro. Não é por acaso que o amigo que eu considero chato muitas vezes também sai de uma conversa comigo pensando: "Nossa, que cara chato!".
Não faz sentido, igualmente, falar em pessoas criminosas, negativas, malignas, burras, raivosas, vingativas, carentes, pois todas essas qualidades dizem respeito às posições em que elas estão e ao tipo de relações que construímos com elas, como indivíduos, organizações, comunidades e como sociedade em geral. Tais negatividades não pertencem a elas, não estão incrustadas em sua alma, não estão instaladas dentro de suas mentes. São qualidades relacionais que se manifestam de acordo com a posição em que elas estão na cidade, em uma empresa, na família, no grupo de amigos e em meio aos outros em geral.
Se eu, por exemplo, perder todos os meus relacionamentos atuais, inclusive com o apartamento onde moro, não vai demorar nem uma semana para que eu comece a pensar em pedir esmola ou até mesmo em roubar para conseguir comida. O problema é que esquecemos dessa mobilidade e congelamos as pessoas nas posições em que ocupam para então as tratamos como se elas fossem aquilo que manifestam. Mesmo com boas intenções, é muito difícil ajudar alguém se estamos cegos para sua liberdade, para as potencialidades, para o espaço, para a natureza livre de atributos que é a essência de qualquer ser humano.
E não precisamos começar com pessoas que estão nitidamente em dificuldades. Podemos começar com nosso colega chato. Se olharmos e nos relacionarmos com sua liberdade além da chatice, acontecerá algo digno do adjetivo "milagroso": o outro mudará. Não porque ele deixará de ser chato, mas porque perceberemos aquilo que parecia ser dele como sendo uma possibilidade (bem restrita) de relação. E então naturalmente vamos construir outro tipo de relação melhor, com outra base, na qual ele se posicionará de outro modo e manifestará outros olhares, pensamentos, emoções, gestos, assim como um namorado se move diferente do filho, mesmo sendo a mesma pessoa.

Nossas qualidades, positivas ou negativas, não estão dentro de nós ou dos outros. Elas estão entre, estão no meio, no espaço onde nos relacionamos com objetos, locais, pessoas, situações, fenômenos em geral.
Se pudermos nos posicionar no mundo de modo virtuoso e construir relações positivas nas dez direções, brotará inúmeras qualidades positivas em nós e nos outros. Ou seja, nosso mundo mudará, como se a maioria das pessoas começasse a sorrir. É claro: elas estão sorrindo pois nosso andar pelo mundo e o modo como nos conectamos está ativando o melhor delas.
Há pessoas que vivem em um mundo de portas fechadas, com pessoas raivosas, carentes, ansiosas, irritadas. E há pessoas que vivem em um mundo de portas abertas, com as mesmas pessoas, só que alegres, abertas, pacientes, se transformando, colaborando e, sim, lidando com obstáculos e padrões negativos. Viver em um mundo assim é muito melhor do que andar em um mundo no qual as pessoas estão congeladas em seus aspectos ruins.
O mundo que encontramos "lá fora" é co-construído por nossa ação, pelo modo como nos movimentamos, assim como uma superfície pode parecer mais ou menos lisa de acordo com a pressão que aplicamos com os dedos ao percorrê-la. "Percepção é ação", diz Alva Noë, inspirado pelas ideias de Francisco Varela.
Todos nós podemos manifestar o pior e o melhor do humano. Se você escolher pelo melhor, se cultivar uma mente lúcida e um corpo vivo, é isso que vai encontrar nas outras pessoas, mesmo quando vier atrás de muitos obstáculos e muita rigidez para a livre expressão de suas potencialidades. Com esse olhar, não importa para onde virar a cabeça, não enxergará nenhum inimigo. São todos amigos, todos no mesmo barco, incluindo o cara que assaltou você ontem. Aliás, se você não considera o assaltante como parceiro, alguém que precisa ser igualmente tocado por essa visão ampla, você acabou de perder a visão, assim como ele perdeu.
É pura perda de tempo falar em construir um mundo melhor ou discursar sobre transformação social sem cultivar uma mente que se relaciona com essa liberdade na pessoa "chata" da mesa ao lado.
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Gustavo Gitti tem formação em filosofia e pedagogia pela USP, já foi editor do Portal do SESC SP e agora trabalha como diretor de conteúdo do PapodeHomem, além de escrever sobre relacionamentos no Não2Não1 e sobre budismo na revista Bodisatva. É aluno do Lama Padma Samten e aprendiz de Taketina, uma técnica que usa o ritmo para transformar a mente.